Do amor, da morte e de Alceste

Do amor, da morte e de Alceste

Do amor, da morte e de Alceste

Meus avós ficaram casados por quase 55 anos. O casamento terminou de acordo com a frase “até que a morte vos separe”. Eu lembro até hoje a frase que minha avó disse ao encontrar o corpo no funeral “eu falei que não era pra você ter morrido”. Sempre que eu vou pensar no tema da morte lembro dessa frase, mas agora quero usá-la para outro tema, não muito distante, o tema do Amor.

Do que eu lembro, daqueles que são geniais o suficiente para eu lembrar da biografia, nenhum deles sobreviveu muito tempo após a morte da esposa. Apesar de que normalmente a esposa sobrevive por mais tempo, principalmente quando este morre cedo. Não sei se isso se sustenta, nem se se deve tirar as conclusões que eu tiro sobre isso, talvez tenha algo haver com a importância da sensibilidade para a curiosidade e assim o crescimento intelectual.
Curiosamente uns dias antes da morte do meu avô eu estive pensando se a morte pode ser uma questão moral. Uma questão ética não pode ser pois a morte é o fim de toda a prática, não pode ser avaliada como boa ou ruim. Mas a morte posse ser uma questão moral, e eu vou me permitir um pequeno excesso provavelmente causado pela minha ignorância de juventude. Não vou discutir o amor, quero falar dos amantes, o que a princípio me parece errado.
Quero pensar numa situação extrema, um casal, casado há 100 anos ou quase isso, um caso em que provavelmente os amantes não são mais dois, porém um único ser, no corpo de dois, que por acaso é a definição de amizade de Aristoteles, só que aqui levada ao extremo. Um amante pode querer morrer primeiro, e acha que com isso estaria valorizando o seu outro eu, o amado. Mas num casamento de 100 anos para o amado perder a sua outra metade é mais doloroso do que morrer. O amante poderia então desejar que o amado morresse antes, porém isso poderia apenas servir como desculpa para não querer morrer antes, quero dizer, um mero exercício intelectual justificaria o egoísmo no lugar da resposta altruísta. Não sei, é o mau de pensar situações limite. Normalmente nesses casos os dois morrem próximos.
Por acaso me ocorreu agora a tragédia de Eurípedes, Alceste. Vou fazer algumas considerações sobre isso. A história fala de Ademeto e Alceste. Eles iriam se casar, Ademeto arranjou umas brigas com uma deusa e esta raptou Alceste. Para salvá-la Ademeto teve que prometer que em um dado momento daria sua vida e seria levado ao tártaro, só poderia escapar se alguém fosse no seu lugar. Quando chegou a altura ele correu para os amigos, os parentes e até os pais pedindo que alguém fosse em seu lugar, pedido absurdo diria eu. Os pais já sacrificaram a vida para dar a ele uma vez, não lho vão fazer novamente. Até que curiosamente Alceste resolve ir no lugar dele, com uma condição, a de que não entrasse outra mulher na casa dos dois. Um dos trabalhos de Hércules foi o de salvar Alceste e retorná-la ao mundo dos vivos. Ao fazer isso ele convenceu Ademeto a receber a mulher em casa, que estava fantasiada de pobre. Hércules teve que convencer Ademeto de receber uma mulher em casa, já que este era um hospitaleiro. Ao aceitar dar abrigo a mulher ele vê que é Alceste.
Esta mais ou menos tragédia que foi mais ou menos retratado por mim aqui mostra mais ou menos o meu problema. Quero dizer, será válido ele dar a vida para salvar Alceste, e depois querer recuperá-la dando a de Alceste?
Uma feminista diria, ah nessa sociedade é tudo assim no final é a mulher que leva. Uma leitura curiosa da peça. Apesar disso eu acho as figuras femininas do teatro grego fantásticas. Deixo aqui minha admiração, e um feliz 8 de março para elas, as mulheres de Atenas.
Pedro Possebon, Santo André, 8 de março de 2015
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