As crianças birrentas da idade moderna.

As crianças birrentas da idade moderna.

Pior que ser colocado em uma imensa torre como Rapunzel no passado, hoje, seria a bruxa querer ser a garota. Este é o drama dos jovens hoje. Eles não podem crescer, pois são invejados pelos pais.

Contardo Calligaris escreveu sobre isto. Vou colocar os dois artigos sobre aqui junto com um artigo sobre o segundo de Paulo Ghiraldelli. A argumentação do psicanalista vai no sentido de dizer que com a perda de esperança em alguma transcendência ocorrida no século 19. Voltamos nossas esperanças a infância, meio que seguindo Rousseau e tentamos fazer a infância ser melhor possível. Meio que uma reconstrução da transcendência almejada. Um período sem frustrações, nem sexualidade…

O que antes seria um período a ser deixado o mais breve possível – muito com o imperativo rodriguiano “jovens, envelheçam”. Este período passou a ser estendido o máximo possível. Chegando ao penso de ser idealizado pelos próprios adultos que dele deveriam ter largado. Que adulo hoje já não exclamou “como as coisa eram mais simples…” que poderia ser substituído por “como seria melhor não termos comido aquela maçã”. A personagem responsável pela tarefa de Eva, o professor, é aqui odiado. Aquela que nos fez comer do fruto da árvore do conhecimento é nesta sociedade ultrajada – cassetetes e e bombas de gás lacrimogêneo não ão de ser poupadas nesta tarefa, a do eterno desprezo a Eva…

Adultos que não querem crescer impedem os filhos. Eles os imitam, não oferecem a perspectiva de crescerem. Num mundo com muitos divórcios – sinal de alguma infantilização? Isto se consubstancia é um a eterna disputa pelo amor do filho. Mimos são o de menos, surpreende que um pai que quer ganhar o amor do filho (em detrimento do outro, divórciados ou não!) deixe a criança andar ou até deslizar sozinha. O rebento passa a ser uma loira, independente da cor do cabelo ou de gênero. Não lhe deixam fazer nada. O mundo está mais loiro, isto é visível não apenas nas mechas que meninos e meninas fazem no cabelo.

Creio que esta é uma condição passageira. Já aqui eu recomendei três filmes, o Boyhood, o Whiplash e um brasileiro (calma) chamado Não faço a menor ideia do que to fazendo com a minha vida. Estes três filmes mostram jovens nesta condição, tentando deixar de ser. Os três filmes são muito bons, o último é uma espécie de de síntese dos outros dois, só que no Brasil… É muito significativo prestar atenção em quem diz a frase “Eu não faço a menor ideia do que estou fazendo com a minha vida”. Nos três filmes os infantis são os adultos. Três casos de pais separados (ou semi-separados como no filme brasileiro), o caso do Whiplash é mais engraçado. O do Boyhood é ótimo, tanto na figura do pai quanto na da mãe. Não trabalhar, exceto os que o fazem por motivos filosóficos – como Emil M. Cioran – normalmente esta ligado com certa infantilidade. Trocar constantemente de casa, marido, emprego também.

Meio que os três filmes não tem final, mas os três circulam na temática amorosa e na necessidade de arrumar um “métier”. Isto me lembra de uma parte do Memórias Póstumas de Brás Cubas. Em que Brás Cubas está deitado na cama, desiludido no amor e tendo concluído o curso de Direito. Para tirar o filho desta condição o pai entra com duas coisas, uma esposa e um emprego. Claro, se tratando de um romance realista nenhum dos dois deu muito certo. A mulher morreu convulsa, o emprego era de político, o que acabou por reavivar a primeira desilusão amorosa! Machado! Sempre Machado, já no século 19 ele deu uma boa solução para o ocidente. Melhor seria uma intervenção estatal, a escola deveria ensinar, porém, para além de dar uma profissão as escolas poderiam garantir também a “bolsa ficante”. Proposta pelo Filósofo Paulo Ghiraldelli, ela nos lembra de que na adolescência nenhum jovem está centrado em estudar. Ele está muito mais interessando no seu corpo que se desenvolve e nos corpos das colegas. Estas, nesta idade, percebem que podem atrair homens mais velhos com as mudanças no seu corpo. Vou tentar deixar estes textos aqui. São pelo menos uns três do autor que andam em volta desta ideia. A bolsa ficante seria uma escola que oferecesse atividades no período da tarde. Ver as alunas fazendo ginástica é um bom incentivo para voltar bem rápido para a escola…

Um amor e um métier. Esta pode ser uma solução para as crianças birrentas da idade moderna…

Referencias:

Maioridade penal? – Contardo Calligaris

O novo abuso de criança – Contardo Calligaris 

Calligaris e Ortellado: desencontro infantil – Paulo Ghiraldelli Jr.

“Bolsa ficante” – Paulo Ghiraldelli Jr.

 Pedro Possebon, 8 de outubro de 2016, Santo André
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