Nietzsche, Emerson e Pascal numa suruba cósmica

Nietzsche, Emerson e Pascal numa suruba cósmica

O Filósofo Paulo Ghiraldelli [2] argumenta que a filosofia trágica, que nos lembra que no final tudo é vão é uma filosofia cristianizada. O Eclesiastes diria, a vida é o vapor dos vapores. Neste entendimento Nietzsche não estaria sendo lido como um filósofo cristianizado?

O meu amigo Giovane Martins usou a leitura da Scarlett Marton, de Nietzsche como um cosmólogo. Para nos lembrar de que negar a felicidade também é uma negação da vida. Ou seja, amar um sofrimento a ponto de desejar o seu eterno retorno, não é também amar a felicidade e desejar o eterno retorno de todos os momentos felizes. Esse é um pensamento extremamente otimista diz ele [3].

E a morte, a morte para um cosmólogo é apenas a poeira cósmica que se denomina indivíduo retornou ao lugar em que ela sempre esteve. Por uma eternidade se passa não vivendo, se vive 100 anos e voltamos a não ser nada mais do que poeira cósmica. Dentro desse pensamento, tem alguma importância o que sente em algum momento mera poeira cósmica? Mesmo que esse momento retorne eternamente? Vou citar alguns trecos e continuar pensando.

“Se leio, se amo Pascal, como a vítima mais instrutiva do cristianismo, gradualmente assassinado, primeiro no corpo e logo no espírito” [4]

Essa conversa toda me fez lembrar um aforismo que gostei muito, o número 22 do Humano, Demasiado Humano:

“Descrença no “monumentum aere perennius” [monumento mais duradouro que o bronze]. — Uma desvantagem essencial trazida pelo fim das convicções metafísicas é que o indivíduo atenta demasiadamente para seu curto período de vida e não sente maior estímulo para trabalhar em instituições duráveis, projetadas para séculos; ele próprio quer colher a fruta da árvore que planta, e portanto não gosta mais de plantar árvores que exigem um cuidado regular durante séculos, destinadas a sombrear várias seqüências de gerações. Pois as convicções metafísicas levam a crer que nelas se encontra o fundamento último e definitivo sobre o qual se terá de assentar e construir todo o futuro da humanidade; o indivíduo promove sua salvação quando, por exemplo, funda uma igreja ou um mosteiro, ele acha que isto lhe será creditado e recompensado na eterna vida futura da alma, que é uma obra pela eterna salvação da alma. — Pode a ciência despertar uma tal crença nos seus resultados? O fato é que ela requer a dúvida e a desconfiança, como os seus mais fiéis aliados; apesar disso, com o tempo a soma de verdades intocáveis, isto é, sobreviventes a todas as tormentas do ceticismo, a toda decomposição, pode se tornar tão grande (na dietética da saúde, por exemplo), que com base nisso haja a decisão de empreender obras “eternas”. Por enquanto, o contraste entre nossa agitada, efêmera existência e o longo sossego das eras metafísicas ainda é muito forte, pois os dois períodos se acham ainda muito próximos um do outro; o indivíduo mesmo atravessa hoje demasiadas evoluções internas e externas para ousar se estabelecer duradoura e definitivamente, ainda que seja pelo tempo de sua vida. Um homem totalmente moderno que queira, por exemplo, construir uma casa para si, sente como se quisesse se emparedar vivo num mausoléu.”

Alguns aforismos de Aurora:

46. DUVIDAR QUE SE DUVIDA

“Que travesseiro fofo é a dúvida para uma cabeça bem feita!” — estas palavras de Montaigne sempre exasperaram Pascal, pois ninguém como ele tinha exatamente tanta necessidade de um travesseiro fofo. A que se referia isso, pois?

63. ÓDIO DO PRÓXIMO

Supondo que consideremos nosso próximo como ele se considera a si mesmo — o que Schopenhauer chama compaixão e que seria exatamente autocompaixão — seriamos forçados a odiá- lo se, como Pascal, ele próprio se julga odiável. Era precisamente o sentimento geral de Pascal com relação aos homens e também aquele do antigo cristianismo que, sob Nero, foi qualificado de odium generis humanis, como Tácito relata.

79. — UMA PROPOSTA

Se, segundo Pascal e o cristianismo, nosso eu é sempre odioso, como podemos admitir e aceitar que outros o amem — fossem eles Deus ou homens? Seria contrário a toda a decência deixar-se amar, sabendo perfeitamente que só se merece o ódio — para não falar de outros sentimentos de repulsa. “Mas esse é justamente o reino da graça.” — Seu amor ao próximo é então uma graça? Sua piedade é uma graça? Pois bem, se isso lhes é possível, dêem um passo a mais: amem-se a si mesmos por graça — então não terão mais necessidade alguma de seu Deus e todo o drama da queda e da redenção se desenrolará em vocês mesmos até seu fim!

Pascal fala em três ordens [5], a ordem do coração, a ordem da razão e a ordem do corpo. Nietzsche fala no Ecce Homo que o cristianismo matou Pascal “primeiro no corpo e logo no espírito”. O espirito aqui é referente a ordem do coração. Então podemos dizer que está vivo a ordem da razão, sem duvida! Nietzsche tem Pascal nas veias.

Em Pascal o eu é um nada. Todas as nossas virtudes e tudo o que podemos chamar de “mim mesmo” não resiste a uma perda de memória. Nietzsche me parece gostar da ideia, porém chega um momento em que o cristianismo começa a pesar em Pascal, que esse nada substancial vira algo odiável, Pascal não consegue ficar sozinho [6] ele tinha “necessidade de um travesseiro fofo”. Nietzsche não vai por aí, ele quer o nada, quero dizer, ele quer o mero acaso,o contingencial. O Nietzsche é um cara que assume seu eu, que é um nada, ele é o cara que pode dizer “Como sou tão sábio” “Como escrevo tão bem” “Como sou tão foda” “Como sou tão bem dotado” etc. Nietzsche neste ponto está muito mais perto de Emerson do que de Pascal.

Quando começamos a pensar no “monumentum aere perennius” o pensamento trágico vira uma preocupação sem sentido de uma menininha com um lacinho rosa na cabeça. Perante o “monumentum aere perennius” e sendo convidado a pensar as instituições para os próximos séculos, qual é o valor do fato de que nós vamos morrer? É uma frescura imensa de quem não pode pensar o por vir, de quem se sente “como se quisesse se emparedar vivo num mausoléu”.

Nietzsche te desafiar a ser alguém mesmo sendo nada – contingência. Te desafia pensar o universo sendo apenas poeira cósmica. Talvez seja essa a “mais difícil exigência que já foi feita a humanidade” que ele diz que faria. Claro que seria a exigência mais difícil, o homem moderno passa a vida pensando na morte!

“Na previsão de que em breve terei de surgir perante a humanidade com a mais difícil exigência que se lhe fez, parece-me indispensável dizer quem eu sou.” Ecce Homo, prefácio, 1

Pedro Possebon, Santo André, 27 de fevereiro de 2015

[1] – Nietzsche com Giacóia

[2] – Texto do Paulo

[3] – Texto do meu amigo Giovane Martins

[4] – Alberto Frigo

[5] – Hora da Coruja sobre Pascal 1

[6] – Pascal 2

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