A parrhesia e o Charlie Hebdo

 

A parrhesia e o Charlie Hebdo

Bom, nada se pode falar sobre a legitimidade do jornal de fazer aquilo, pois nesse momento iria se pôr em causa a liberdade de expressão e neste momento acabaria qualquer possibilidade de discussão. Mas eu quero aqui fazer algo melhor, quero analisar o Charlie como um cínico praticando a parrhesia.

A parrhesia na Grécia antiga era o falar franco praticado pelos filósofos cínicos. A parrhesia é praticada a fim de chocar o interlocutor ou o público. Ela é o método dos cínicos para encontrar a verdade por meio de um discurso franco que tem a sua legitimidade baseada não no conteúdo do discurso, mas na legitimidade daquele que faz o discurso. A parrhesia enfrenta o poder quando ela ignora as convenções sociais, tanto na sua prática, quanto no seu discurso. Diógenes não chocava a Ágora apenas com o que dizia, ele tinha outras praticas, como comer ou até se masturbar na Ágora. Mas no que isso tem relacionado com o jornal francês?

A legitimidade do Charlie Hebdo se dava no caráter satírico que ele assume ao atacar todos os lados – a imparcialidade do jornal é na sátira, pois na crítica obviamente eles tendem para o lado libertário que os caracteriza. O Charlie choca até os instrumentos de poder criados por ele mesmo, como no caso religioso ele defende a liberdade de expressão criticando uma religião, mas ao fazer isso defende no seio da liberdade de expressão a liberdade religiosa e a liberdade de culto. Quem não vê isso é porque não faz uma atividade muito recomendada nos últimos dias que é ler e refletir sobre os cartuns do jornal francês.

A verdade para o cínico não está pura e duramente no ato de se masturbar na Ágora, ela está em mostrar aos gregos que aquilo que eles fazem não é um comportamento natural, mas sim um comportamento convencional, pois se dá a partir de convenções sócias. A revelação da verdade para o cínico se dá no meio dá reação do interlocutor, as sátiras do Charlie não devem ser lidar como uma procissão de fé contra isso ou aquilo, era contra o dogmatismo que eles lutavam. Sempre que se luta contra o dogmatismo é de suposto criar outro dogmatismo, o humor escapa disso porque não quer revelar nenhuma verdade. A verdade nos cartuns do Charlie se revelam quando terroristas nascidos na França promovem um ataque contra o jornal e, o ataque é repudiado pela forças islâmicas não radicais – não devemos esquecer que um dos policiais que foram mortos era muçulmano! – , com a reação dos terroristas e a reação dos muçulmanos vemos a verdade sendo revelada à moda da parrhesia cínica, ou seja, o verdadeiro alvo era o terrorismo baseado na religião e, isso foi revelado não ao analisar as charges, nem os chargistas, mas sim a reação dos interlocutores ao discurso do parrhesiasta.

No livro de Foucault sobre a parrhesia ele diz o o parrhesiasta deve praticar o falar franco mesmo que isto mate-o, o que trás paralelos engraçadíssimos para a história dos cartunistas franceses. Isso quase aconteceu com Sócrates e os trinta tiranos, ele enfrentou o poder o naquela ocasião e só não foi pego por sorte, pois o regime caiu do dia pra noite – depois ele foi condenado a morte, em democracia (!). Platão quando foi dizer ao Dionísio (imperador) na Sicília que o governo é ruim este lhe pegou e o vendeu como escravo, Platão só se salvou por ter sido comprado por amigos.

O que eu fiquei com vontade de ver depois do massacre era a charge que os mortos iriam fazer com o acontecido. Certa vez o imperador Alexandre foi falar com Diógenes que morava na rua, o imperador lhe disse para pedir qualquer coisa, Diógenes disse “saia da frente do meu sol”. Quando vemos Marine Le Pen, a maior vítima dos ataques do jornal defendendo a publicação a fim de atacar o Islã. O que eu diria para esta mulher é saia da frente do meu sol!
Pedro Possebon, Santo André, 10 de janeiro de 2015

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